Um estudo inédito publicado na revista científica Human Reproduction revelou que meninas que seguem uma alimentação saudável durante a infância tendem a ter a primeira menstruação mais tarde, independentemente de seu peso ou altura. A pesquisa, considerada a primeira a vincular padrões alimentares específicos à idade da menarca, foi conduzida por pesquisadores nos Estados Unidos e pode ter implicações importantes para a saúde feminina ao longo da vida.
A análise, que acompanhou mais de 7.500 crianças entre 9 e 14 anos, indicou que dietas ricas em vegetais, grãos integrais e leguminosas estão associadas a um atraso na menarca. Por outro lado, padrões alimentares inflamatórios — baseados no consumo elevado de carnes processadas, grãos refinados e bebidas açucaradas — foram ligados ao início mais precoce do ciclo menstrual.
“As meninas com dietas mais saudáveis apresentaram um risco 8% menor de iniciar a menstruação no mês seguinte em comparação àquelas com dietas menos saudáveis. Já aquelas com hábitos alimentares mais inflamatórios tiveram um risco 15% maior de menstruar nesse mesmo período”, explicou a professora Holly Harris, do Fred Hutchinson Cancer Center e autora principal do estudo.
Segundo os pesquisadores, o achado é significativo, porque a menarca precoce está relacionada a um maior risco de desenvolver doenças crônicas na idade adulta, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e câncer de mama.
Para a ginecologista e especialista em reprodução humana do Centro de Assistência em Reprodução Humana – Genesis, Dra. Hitomi Nakagawa, os resultados do estudo reforçam a importância de bons hábitos alimentares desde a infância. “Esse trabalho mostra de forma clara que a alimentação na infância e adolescência não influencia apenas o desenvolvimento imediato, mas pode ter impacto direto na saúde ginecológica e reprodutiva da mulher no futuro. O atraso na menarca, quando ocorre dentro da normalidade, pode ser um indicativo de menor exposição precoce a hormônios, o que, por sua vez, está associado a menor risco para algumas doenças, como o câncer de mama”, diz.
Ainda de acordo com a médica, promover alimentação equilibrada não é apenas uma questão estética ou de controle de peso, mas sim uma estratégia de saúde pública. “A mensagem principal é que o estilo de vida na infância importa e muito. O incentivo ao consumo de alimentos anti-inflamatórios e naturais deve começar cedo, inclusive com o envolvimento das escolas, que também são espaços fundamentais para o desenvolvimento de bons hábitos”, destaca Dra. Hitomi.
O estudo utilizou dois índices reconhecidos para avaliar a qualidade da dieta: o Alternative Healthy Eating Index (AHEI) e o Empirical Dietary Inflammatory Pattern (EDIP). Enquanto o AHEI valoriza alimentos considerados saudáveis, como vegetais, frutas, leguminosas e gorduras boas, o EDIP mede o potencial inflamatório da dieta, classificando alimentos que contribuem para processos inflamatórios no corpo.
Embora os autores reconheçam limitações no estudo, como a predominância de participantes brancas e a coleta de dados via questionários, os achados abrem caminho para novas investigações. Os pesquisadores pretendem agora estudar a relação entre dieta na infância e características do ciclo menstrual na vida adulta.
“Estamos apenas começando a entender como o que comemos na infância pode moldar nossa saúde hormonal e reprodutiva. Esses dados reforçam o que já suspeitávamos: o cuidado começa muito antes dos primeiros sintomas ou diagnósticos. Começa no prato”, finaliza a Dra. Hitomi.



